TL;DR: Eli Roth lançou Borderlands (2024) como um homônimo de Star Wars, misturando humor ácido, estética neon e referências ao surrealismo de David Lynch. O filme divide opiniões: alguns o veem como um refrescante retorno ao "Star Warsploitation" dos anos 80, enquanto outros o consideram uma adaptação frustrada do jogo.
Eli Roth transformou Borderlands num tributo a Star Wars
Ao assumir a direção da adaptação da franquia da gearbox Software, Roth não tentou ser fiel ao gameplay; ele decidiu abraçar o que há de mais louco nos filmes de ficção‑científica dos anos 70 e 80. O resultado é um espetáculo visualmente exagerado que parece ter saído direto de um catálogo de B‑movies, mas com o toque de horror‑cômico que o diretor traz de seus trabalhos como Cabin Fever e Hostel. A seguir, listamos os sete pontos que definem por que Borderlands se destaca — ou falha — como um filme ao estilo Star Wars.
- Estética neon e explosões exageradas – O visual do filme lembra os posters de Valerian e a Cidade dos Mil Planetas, com cores saturadas, luzes de néon e explosões que parecem ter sido desenhadas à mão. Cada sequência de batalha é um festival de efeitos práticos misturados a CGI barato, o que cria uma sensação de nostalgia deliberada. Essa escolha estética reforça a ideia de que Roth está mais interessado em evocar a atmosfera dos filmes de exploração espacial do passado do que em impressionar com realismo.
- Humor irreverente e autorreferencial – O roteiro não tem medo de quebrar a quarta parede; personagens como claptrap (dublado em inglês por Jack Black) fazem piadas que lembram os comentários sarcásticos de Guardians of the Galaxy. A presença de Kevin Hart como Roland traz um timing cômico que contrasta com a violência cartunesca ao redor, gerando momentos de alívio que, embora forçados, funcionam como válvula de escape para a ação desenfreada.
- Elenco e performances inesperadas – Cate Blanchett, interpretando a caçadora de recompensas lilith, traz uma gravidade digna de um drama épico, enquanto Ariana Greenblatt como tiny tina entrega energia juvenil que combina com o tom caótico do filme. O contraste entre a seriedade de Blanchett e a comicidade de Black cria uma dinâmica que lembra as duplas disparecidas de filmes de ação dos anos 80, como Road Warrior e Mad Max.
- Influências de Lynch e Badalamenti – Embora Lynch nunca tenha dirigido um Star Wars, sua sombra paira sobre Borderlands através de Jack Black, que admitiu ter canalizado o diretor ao gravar Claptrap. A trilha sonora, assinada em parte por Angelo Badalamenti, traz sons oníricos que lembram a tensão surreal de Twin Peaks. Essa mistura de horror psicodélico e ficção‑científica cria momentos que são simultaneamente desconcertantes e divertidos.
- Referências diretas ao "Star Warsploitation" dos anos 80 – O filme cita abertamente clássicos como Battle Beyond the Stars e The Ice Pirates, usando robôs desajeitados, piratas espaciais e naves reutilizadas como parte de sua linguagem visual. Essa homenagem não é sutil; é um convite para que o espectador reconheça as convenções do gênero e, ao mesmo tempo, as subverta com humor.
- Desvio do material original – Fãs do jogo esperavam ver a icônica arte dos Vault Hunters, mas Roth optou por simplificar a mitologia, descartando vários elementos de gameplay. Essa decisão gerou críticas de puristas que sentiram que a essência do título foi diluída. Por outro lado, a liberdade criativa permite que o filme explore ideias que o jogo nunca ousou abordar, como a origem de Claptrap.
- Distribuição e acessibilidade – Borderlands está disponível para streaming no Peacock e, gratuitamente com anúncios, no Fandango at Home. Essa estratégia de lançamento amplia o alcance do filme, permitindo que um público mais amplo experimente a proposta de Roth sem a barreira de um ingresso de cinema. Contudo, a presença em plataformas gratuitas também reforça a percepção de que o filme não recebeu a confiança de grandes estúdios para um lançamento tradicional.
Embora o filme não tenha sido a obra‑prima que alguns esperavam, ele cumpre seu objetivo de ser um passeio delirante pela galáxia, lembrando que o cinema de ficção‑científica pode ser tanto uma celebração quanto uma paródia.
O lado que ninguém está vendo
O que realmente diferencia Borderlands de outras tentativas de "Star Wars‑like" é a forma como ele abraça o caos criativo. Enquanto a maioria dos projetos de adaptação de jogos tenta agradar ao maior número de fãs possível, Roth aceita o risco de alienar puristas para entregar algo que, apesar de imperfeito, tem personalidade própria. Essa postura ousada reflete a influência de David Lynch, que, mesmo sem dirigir um Star Wars, mostrou que o inesperado pode ser mais memorável que o convencional.
Se o filme conquistar um culto de seguidores, será porque ele oferece algo que o universo de Star Wars nunca tentou: um espaço onde o grotesco convive com o cômico sem pedir desculpas. Para quem busca uma experiência que combine nostalgia dos B‑movies com a assinatura de um diretor de horror, Borderlands (2024) pode ser a escolha certa. Para os demais, talvez seja apenas mais um exemplo de como adaptar um videogame pode ser um tiro no escuro.


