A fase de Frank Miller no Demolidor chegou ao fim há 44 anos, em 26 de outubro de 1982, com a publicação da edição 191 nos Estados Unidos. O autor assinou roteiro e arte entre as edições 158 e 191, criou a assassina Elektra, transformou Wilson Fisk no arqui-inimigo definitivo do herói e levou Matt Murdock a um colapso moral que nenhuma equipe criativa posterior conseguiu igualar.
O que aconteceu
A edição final da fase, batizada de "Roleta", mostra o Demolidor ao lado da cama de hospital do Mercenário — paralisado após cair de um fio alto na edição 181 —, propondo um jogo de roleta-russa. O revólver está descarregado, mas a tensão expõe o quanto o herói se aproximou da vilania. Miller usa flashbacks para costurar os eventos que quebraram o advogado: a morte de Elektra nas mãos do Mercenário, a traição de Karen Page vendendo a identidade secreta ao Rei do Crime, a ruína financeira e o desbaratamento da vida civil de Murdock na saga "A Queda".
Miller parou de desenhar a série na edição 184, mas retornou para fechar o ciclo como roteirista e artista na 191. O primeiro quadrinho da edição resume a filosofia da fase: o herói com a arma na têmpora, diante de um inimigo indefeso, questionando onde termina a justiça e começa a crueldade. A criança que idolatra o Demolidor por "socar quem estiver no caminho" e acaba atirando em um valentão no parquinho funciona como espelho: a violência do herói inspira violência no mundo real.
Como chegamos aqui
Antes de Miller, o Demolidor era um herói de segunda linha, com vendas modestas e identidade visual genérica. O autor assumiu o título em 1979 e, em poucos números, injetou noir, artes marciais e tragédia grega. A introdução de Elektra Natchios — ex-namorada de Matt, treinada pelo Tentáculo, morta pelo Mercenário — deu ao protagonista uma perda irreparável. O Rei do Crime deixou de ser um chefão genérico para se tornar uma força da natureza que destrói a vida civil do herói sistematicamente: congela contas, executa despejo, provoca a radiação da ordem dos advogados e empurra Murdock para a miséria.
A saga "A Queda" ("Born Again"), publicada após a fase regular, aprofunda o colapso. Karen Page, ex-namorada e secretária, troca a identidade do herói por drogas. Fisk usa a informação para desmontar cada pilar da vida de Matt. O resultado é um homem sem casa, sem profissão, sem aliados, forçado a reconstruir-se do zero. Miller também revisita a infância do personagem: um garoto irritadiço, impulsivo, propenso a explosões de violência antes mesmo do acidente que o cegou. A cegueira não criou o herói; apenas canalizou uma raiva pré-existente.
- Edições 158 a 191: fase completa de Miller como roteirista e/ou artista
- Edição 181: morte de Elektra pelo Mercenário
- Edição 191: "Roleta", encerramento da fase (26/10/1982)
- Saga "A Queda": pós-fase regular, aprofunda a ruína de Murdock
O que vem depois
Quatro décadas depois, a fase Miller segue como régua para qualquer equipe que assuma o personagem. Anúncios de novas fases criativas invariavelmente citam o trabalho como referência. A série da Netflix (2015-2018) adaptou "A Queda" e elementos da fase regular, consolidando o tom sombrio para o público geral. Nos quadrinhos, autores como Brian Michael Bendis, Ed Brubaker, Mark Waid e Chip Zdarsky dialogaram com o legado — seja expandindo, seja reagindo contra a escuridão extrema. A Marvel relança periodicamente encadernados da fase, e a edição 191 original valorizou-se no mercado de colecionadores.
Para o leitor brasileiro, a fase está disponível em encadernados da Panini ("demolidor: a queda", "demolidor: o homem sem medo" e coleções cronológicas). A leitura continua sendo o ponto de entrada definitivo para entender por que o Demolidor, entre os heróis urbanos da Marvel, carrega o peso de uma mitologia própria — e por que nenhum autor posterior conseguiu superar o que Miller fez em 33 edições.
"O que torna um herói? E onde está a linha onde ele se torna um vilão?" — pergunta que Miller deixa aberta na última página de "Roleta".
O legado que não envelhece
A fase Miller não envelheceu porque não depende de artifícios de época. O noir, a coreografia de luta, a estrutura de tragédia grega e a dissecação psicológica do protagonista funcionam em qualquer década. O Demolidor de Miller não é "sombrio por ser sombrio"; ele é sombrio porque o mundo ao redor o obriga a escolhas impossíveis, e cada escolha cobra um pedaço da humanidade do personagem. Essa arquitetura narrativa — onde a violência tem consequência psicológica real — continua sendo o padrão-ouro para histórias de heróis urbanos.
Se você nunca leu, comece pela edição 158 e vá até a 191, depois emende "A Queda". É uma leitura longa, densa e, 44 anos depois, ainda insuperável.


