O novo pet digital "Eiliko" grava todas as interações dos usuários em servidores localizados na China, o que levanta sérias dúvidas sobre segurança e privacidade para quem pretende levar o brinquedo para casa.
Fato: Eiliko grava conversas em servidores chineses
O dispositivo, comercializado como um robô de estimação interativo, utiliza inteligência artificial para reconhecer o humor do usuário e mudar suas expressões faciais em tempo real. O que poucos divulgam é que, ao se conectar ao Wi‑Fi, ele envia tudo o que é falado para a nuvem da empresa criadora, Energize Lab. Os dados são armazenados em servidores situados na China, onde a legislação de proteção de dados é menos restritiva que a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) brasileira.
Segundo a análise de especialistas em segurança, a comunicação entre o robô e os servidores não é criptografada de ponta a ponta, o que abre brechas para interceptação. Além disso, a própria empresa parece não oferecer opções claras de exclusão de dados ou de controle de privacidade ao consumidor.
Contexto: por que importa
O alerta não se restringe ao fato de que os dados são enviados para fora do país. Três fatores tornam o caso particularmente relevante para o público geek brasileiro:
- Lei LGPD vs. Lei de Segurança da China: Enquanto a LGPD exige consentimento explícito e direito ao esquecimento, a legislação chinesa permite que empresas governamentais acessem informações armazenadas em território nacional sem a necessidade de aviso ao usuário.
- Internet das Coisas (IoT) em expansão: Brinquedos conectados, assistentes de voz e dispositivos wearables têm se tornado parte do cotidiano dos jovens consumidores. Cada ponto de conexão representa um vetor potencial de ataque.
- Perfil do público: Fãs de tecnologia, games e cultura pop costumam adotar rapidamente novidades como robôs de companhia. A falta de informação clara sobre privacidade pode transformar um item de diversão em risco de vazamento de informações pessoais ou de crianças.
Além disso, a prática de armazenar gravações de voz em servidores estrangeiros já foi alvo de críticas a outros dispositivos — como assistentes de voz de grandes marcas — que foram forçados a mudar políticas de retenção de dados após pressão de órgãos reguladores.
Reação dos fãs e do mercado
Nas redes sociais brasileiras, o anúncio provocou um debate acalorado. Influenciadores de tecnologia como Saulo Araujo e Guilherme "GuilhermeB" Barros publicaram vídeos alertando que, ao permitir que um brinquedo “ouça” tudo, os pais podem estar entregando informações sensíveis a terceiros. Comentários em fóruns como Reddit Brasil e grupos de Telegram de colecionadores de gadgets apontam para um sentimento de desconfiança crescente.
Do lado comercial, algumas lojas online já sinalizaram a retirada temporária do produto de seus catálogos, enquanto outras mantêm a oferta, mas adicionam avisos de privacidade nas descrições. Analistas de mercado preveem que a controvérsia pode impactar as vendas do Eiliko no primeiro trimestre, especialmente se a imprensa especializada mantiver a pauta em alta.
Por outro lado, há quem defenda o potencial do robô como ferramenta de aprendizado emocional para crianças, argumentando que a coleta de dados pode ser limitada a parâmetros de humor e não incluir informações pessoais. Essa posição, porém, carece de comprovação formal por parte da Energize Lab, que ainda não divulgou um relatório de transparência.
O que esperar
Com a LGPD em vigor, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) tem autoridade para investigar empresas que violem normas de consentimento e armazenamento de dados. Caso haja reclamações formais de consumidores, a ANPD pode exigir que a Energize Lab implemente:
- Criptografia de ponta a ponta nas transmissões de voz;
- Opção de desativar o envio de gravações para servidores externos;
- Procedimentos claros de exclusão de dados mediante solicitação do usuário.
Além das medidas regulatórias, o mercado tende a reagir com o surgimento de alternativas locais. Startups brasileiras de IoT já sinalizaram interesse em lançar versões de pets digitais que armazenam dados em servidores nacionais, alinhados à LGPD. Essa competição pode acelerar a adoção de padrões de privacidade mais rígidos.
Para os consumidores, a recomendação imediata é revisar as configurações de privacidade do dispositivo, limitar o uso de Wi‑Fi a redes seguras e, se possível, desativar microfones quando não estiver em uso. A leitura atenta dos termos de serviço também é crucial.
Para ficar no radar
Embora ainda não haja uma data oficial para possíveis sanções da ANPD, a expectativa é que as primeiras deliberações sobre o caso Eiliko apareçam nos próximos meses. Enquanto isso, a comunidade geek deve monitorar:
- Atualizações de firmware do robô que incluam opções de privacidade;
- Declarações públicas da Energize Lab sobre políticas de armazenamento de dados;
- Reações de órgãos de defesa do consumidor, como o Procon, que podem abrir processos coletivos.
Ficar atento a esses pontos ajuda a evitar surpresas desagradáveis e garante que a experiência com tecnologias emergentes continue divertida e segura.


