Em 1983, a Marvel Comics colocou nas bancas The Adventures of the kool-aid man, série de três edições estrelada pelo mascote da bebida em pó que invadia paredes gritando "Oh yeah!". O título durou até 1985 antes de migrar para a Archie Comics, onde ganhou mais cinco números e encerrou em 1990. Ao todo, o personagem somou onze aparições em quadrinhos entre o final dos anos 70 e o início dos anos 90, mas quase ninguém lembra que a Casa das Ideias já publicou o jarro antropomórfico.
5 fatos que explicam por que a HQ do Kool-Aid Man na Marvel merece ser redescoberta
- Roteiro de um veterano da Marvel. Jim Salicrup, editor com passagens por Marvel Comics, Topps Comics, Stan Lee Media e Papercutz Graphic Novels, assinou os três números iniciais. Ele não teve vergonha de usar a entrada icônica do personagem: o Kool-Aid Man estoura paredes em praticamente todas as edições, transformando o gag publicitário em marca registrada da HQ.
- Referências diretas ao Universo Marvel na edição de estreia. Em "The Thirsties Strike Out", um dos garotos diz que o herói "deve ser forte como o hulk". Na segunda história, "Thirst in Space", um personagem exclama: "Se isso não é uma nave dos Thirsties, eu sou o Incrível homem-aranha". Salicrup abandonou as menções nas edições seguintes, mas o flerte com o canon da editora está lá.
- Vilões que parecem o electro, mas não são. Os Thirsties — amarelos, com contornos espinhosos — lembram visualmente o inimigo do Homem-Aranha. O líder, Big Thirstie, até manipula eletricidade e invade computadores. A semelhança é forte o suficiente para fazer fãs especularem sobre um crossover que nunca aconteceu.
- Tom de paródia consciente desde o primeiro número. A HQ entrega um esconderijo secreto que o protagonista mostra às crianças logo na primeira aventura, quebrando a lógica do "quartel-general oculto". Em "Thirst in Space", os vilões usam um "raio da sede" contra o herói, que responde: "Não existe raio que me deixe com sede". A piada funciona porque a HQ sabe o quão absurda é a premissa.
- "The Kool-Aid Man Meets the Compu-Terror" antecipa o medo da casa inteligente. Na terceira edição, um computador que controla toda a residência enlouquece e prende os moradores. O vilão se revela como Big Thirstie, mas o Professor Klein alerta para o perigo real: uma máquina que comanda todas as outras na Terra e no espaço. Décadas antes de assistentes de voz e IoT, a história já brincava com o tema.
- Subversão pontual da fórmula "crianças pedem socorro". A maioria das tramas segue o padrão: garotos em apuros, chamam o Kool-Aid Man, ele resolve. Em "A Camping Adventure", Salicrup inverte: as crianças tentam enfrentar os Thirsties sozinhas, são capturadas e precisam do herói. Pequena virada, mas mostra que o roteirista conhecia os clichês e brincava com eles.
- Expansão de lore involuntária em "The Great Balloon Race". A corrida de balões apresenta não só o Kool-Aid Man, mas também sunshine punch e mountain berry punch — outros jarros da linha. A HQ levanta a pergunta: quantos mascotes-piche existem nesse universo? A resposta nunca veio, mas a semente de um "Kool-Aid Verso" ficou plantada.
- Arte que equilibra propaganda e narrativa de quadrinhos. Apesar do objetivo comercial, as páginas não parecem folhetos de supermercado. O traço acompanha o padrão Marvel da época, com enquadramentos dinâmicos nas cenas de ação (a quebra de parede, a batalha no espaço, o confronto na casa computadorizada). O resultado lê-se como uma HQ legítima, não apenas um anúncio disfarçado.
Quem ficou de fora
A fase Archie (1985-1990) adicionou cinco edições que poderiam render outra lista: mudanças de equipe criativa, novos vilões e o fim da publicação. Também ficou de fora a minissérie de 1975 da General Foods Corporation, anterior a tudo isso, que estabeleceu o visual do personagem nos quadrinhos. Se a Marvel republicasse o material hoje — algo que já fez com Rom e micronautas —, o jarro laranja teria chance de virar cult entre colecionadores de curiosidades da editora.


